quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ESPIGÕES VERSUS PORTA E JANELA


Arquiteto WALDECY FERNANDES PINTO

Ex-Secretário de Planejamento da PCR

Alguém já afirmou que muitas vezes as pessoas se perdem nas justas reivindicações, quando não conseguem distinguir CAUSA E EFEITO. As cidades do mundo inteiro que foram planejadas para um tipo de locomoção dos seus habitantes não motorizados individualmente, têm sofrido bastante com os transtornos causados com o advento do automóvel, hoje artigo de primeira necessidade. O automóvel entrou na nossa vida como fator de segurança, de conforto, de rapidez e porque não dizer de liberdade de ir e vir no complemento das atividades de ligações entre a habitação, o trabalho e o lazer.
Aí talvez se localize a causa principal das perturbações sofridas pelos centros urbanos, no tocante aos aspectos físicos da cidade. Outro fator preponderante é o que se refere a escolha de onde morar, por parte do cidadão. Naturalmente que, uma gama de fatores importantes se somam, a esta escolha do local para obtenção de um resultado ideal com relação à infra estrutura principalmente no caso do Recife, ou seja, a existência ou não do saneamento, a paisagem (meio ambiente), a tranqüilidade, a segurança e principalmente as proximidades das áreas de lazer, do trabalho, das áreas de abastecimento e do local dos estudos dos filhos ou dependentes.
Verifica-se portanto áreas de concentração de habitações em alguns bairros onde esta equação se torna bem resolvida, aliada a um outro fator que é o da tradição familiar e exercida durante séculos pela própria concepção da nossa cidade.
É muito fácil rever as escolhas do passado em termos habitacionais no testemunho demonstrado pelo próprio patrimônio arquitetônico dos bairros de São José, Santo Antônio e Boa Vista, muito bem identificados pelas presenças dos templos religiosos, as Igrejas barrocas, que revelam também as diferenças sociais e econômicas da formação populacional, as casas de porta e janelas, os sobrados e os casarões nos bairros mais distantes do Centro como Aflitos, Espinheiro, Graças, Dois Irmãos, Poço da Panela, todos com as suas histórias e as suas tradições. Justamente estes bairros considerados mais nobres é que foram escolhidos pelos recifenses, justificando as atuais concentrações das habitações. Portanto é no patrimônio arquitetônico que vamos encontrar na tipologia das construções principalmente voltadas para o habitacional do Recife, o reflexo das diversas épocas sociais e econômicas do município e em especial das preferências por alguns bairros..
Os loteamentos implantados no Recife foram concebidos, à época, no modelo tabuleiro de xadrez, constituído de pequenas quadras e ruas de 12 metros, na sua maioria desassociados da integração com o sistema viário, não prevendo a figura do automóvel e também do sistema de transporte coletivo.
Estão aí resumidamente algumas causas que possam justificar as deficiências no traçado urbanístico do Recife. Por outro lado deve-se levar em consideração a velocidade de uma vertente econômica/social que é o modelo da atual sociedade de consumo globalizada, onde a oferta com a facilidade de aquisição do automóvel, ocupa grandes espaços na mídia, injetando no precário sistema viário cerca de 1,2 mil veículos mês. Como preparar o município para receber esta contribuição? Ai está outra causa cujo efeito estamos sentindo. Como se porta hoje o planejamento municipal para solucionar o sistema viário individual e em especial o do transporte coletivo?
Inicia-se uma luta contra os espigões em determinados bairros que é o efeito para atender duas causas que são: a do déficit habitacional, e a outra da preferência da população em termos dos bairros da cidade, melhores dotados de infra estrutura.
Será que existem áreas no Recife para melhor direcionar o Mercado Imobiliário e também para o atendimento à preferência do cidadão?
E a infra estrutura para as opções de adensamento de outras áreas, existem ou será exigido da iniciativa privada a execução?
Sem levar em consideração o radicalismo, é necessário pensar um pouco no que aconteceu no passado, ou seja à desativação das usinas, do parque industrial têxtil e das empresas bancárias, apenas para citação destas três atividades. Será que chegou a vez do Mercado Imobiliário? Será ele o causador dos transtornos do transito, da falta de transporte coletivo, da falta do saneamento básico, dos apagões ou mesmo do causador do desemprego?
Vamos sentar à mesa Empresários, Poder Público e Cidadãos discutir sem parcialidade e sem paixões os destinos da cidade esquecendo termos como especulação imobiliária, espigões utilizados numa linguagem pejorativa que não leva a nada. Preparar a Cidade para o futuro faz parte da gestão municipal e também do CIDADÃO, sem jogar classe contra classe, criando oportunidades para que da participação com união, só quem lucrará é o povo. A PCR representa toda a população e não pode ser classificada como madastra, dando preferência a uns em detrimento a outros.
A qualidade de vida não está relacionada somente na luta contra espigão versus porta e janela, e sim na adoção de soluções resultantes da contribuição de todos, como vem acontecendo democraticamente com o ORÇAMENTO PARTICIPATIVO.
Contribuem diretamente com as atividades legítimas da construção civil os arquitetos, os engenheiros, os advogados, os corretores de imóveis, os operários, os comerciantes e representantes comerciais, as indústrias dos materiais componentes do setor. Portanto deixemos de lado a luta contra os espigões contando com o atual administração, altamente democrática da Prefeitura do Recife, para uma convocação de todos os cidadãos para discutirem o que desejam, em termos de modelo urbanístico para a Cidade do Recife.
Tudo isto sem pressa e sem utilizar o modelo das “Medidas Provisórias”, ante democráticas de congelamento de bairros ou similares.
Recife,18 de agosto de 2001
Arquiteto Waldecy F. Pinto

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